29 abril, 2006

[Texto] Eu sei, mas não devia (de Marina Colasanti)

Eu sei que a gente se acostuma.

Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E porque à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã, sobressaltado porque está na hora.

A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíches porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir a janela e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números da longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que paga. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com o que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes, a abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema, a engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às besteiras das músicas, às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À luta. À lenta morte dos rios. E se acostuma a não ouvir passarinhos, a não colher frutas do pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não muito o que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda satisfeito porque tem sono atrasado. A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.

Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

Sussurro de Vincent Ferdinand Hirscher, às 2:50 AM. 0 Comments

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Tatta Hitotsu No Omoi
Kokia

Tatta hitotsu no omoi tsuranuku
Muzukashisa no naka de boku wa
Mamorinuite misetai no sa
Kakegae no nai mono no tame ni
Hatashitai yakusoku

Gimon darake no yo no naka
Kotae wa mitsukaranai mama
Sore de mo mae ni susumu no Why?
Sora e to nobiru itosugi
Massugu sashishimeshita michi
Ima to iu kiseki o shinjiyou

Yume mitai na genjitsu
Kono te de kaerareru mono nara

Tatta hitotsu no omoi tsuranuku
Muzukashisa no naka de boku wa
Mamorinuite misetai no sa
Kakegae no nai mono no tame ni
Namiutte iru kodou ni chikau yo
Moetsukiru made hashiritsuzukeyou
Ikinuite koso kanjirareru
Eien no itoshisa no naka
Hatashitai yakusoku

Oka no shita saku himawari
Mabushiku hirogaru kiiro wa
Kibou no hikari o terasu yo

Kaerareru mono nara
Chigatta ikikata aru hazu to

Subete kakeyou ataerareta
Toki no naka de kagayaite itai
Tada iki o shite koko ni iru dake
Sore dake na no ni afuredasu kimochi
Boku ni wa boku no shiawase ga aru
Sou omoeru dake de dore hodo
Kono shunkan ga itooshii hodo
Hikari o hanatte yuku yo

Hitori de susumu ni wa
Nagasugiru michinori
Dareka ga kono tobira
Akenai ka matteru

Tatta hitotsu no omoi tsuranuku
Muzukashisa no naka de boku wa
Mamorinuite misetai no sa
Kakegae no nai mono no tame ni
Namiutte iru kodou ni chikau yo
Moetsukiru made hashiritsuzukeyou
Ikinuite koso kanjirareru
Eien no itoshisa no naka

Hatashitai yakusoku

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